Notícias Terça-feira, 8 de junho de 2021

Entrevista: engenheira florestal Adriana Gouvêa fala sobre trajetória e cenário atual

O dia 12 de julho é dedicado a homenagear os Engenheiros Florestais. Este é o dia de São João Gualberto, santo italiano proclamado pelo Papa Pio XIII como protetor do Engenheiros Florestais, por sua destacada dedicação à silvicultura nos anos 1035.

No dia do Engenheiro Florestal, o Crea-MS traz uma entrevista com a engenheira florestal Adriana Gouvêa, que conta um pouco da sua trajetória, da importância da profissão e seu cenário atual e fala sobre o espaço conquistado pela mulher na Engenharia.

Adriana Gouvêa é mestre em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Lavras e doutora em Ciências Florestais pela Universidade Federal de Viçosa. Possui diversas participações em projetos desenvolvidos na área de Recursos Florestais e Engenharia Florestal, com ênfase em Tecnologia e Utilização de Produtos Florestais. Atualmente é Professora da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (Aquidauana, MS) atuando no curso de graduação em Engenharia Florestal.

Crea-MS – Professora, a senhora é gaúcha, se formou em Viçosa, o local onde teve início, em 1960, a primeira graduação em engenharia florestal no país. Como foi a sua escolha pela profissão? Pode nos detalhar como foi esse processo? Como chegou a Mato Grosso do Sul?

Adriana – Eu nasci no Rio Grande do Sul, mas me mudei para Viçosa-MG com minha família aos dez anos de idade. A cidade é universitária e de fato nos contagia em relação aos estudos. Entrar na Universidade Federal de Viçosa (UFV) é o sonho de todos os jovens da cidade e região. A UFV sempre foi uma escola conceituada, e para ingressar nela era preciso muita dedicação e determinação.

A escolha pela minha profissão foi um tanto inusitada. Como ainda acontece com os jovens hoje em dia, eu tinha muitas dúvidas na época do vestibular, e nesta imersão de incertezas eu conheci um vizinho que era engenheiro florestal, e sempre que nos encontrávamos, ele dizia que a Engenharia Florestal era o melhor curso do mundo, sempre com muito entusiasmo falando sobre o curso e área de atuação. Bom, o resultado disso foi que eu e minha irmã ingressamos na Engenharia Florestal. Em janeiro de 2004 eu me formei na UFV e lá trabalhei por um ano como pesquisadora. No ano seguinte ingressei no mestrado na Universidade Federal de Lavras-UFLA. Após o mestrado fiz um concurso para professor substituto na UFV, foi uma boa experiência, então tive a certeza que queria seguir o caminho da docência. No mesmo ano ingressei no doutorado na UFV e como já tinha certeza do que queria, estava de olho nos editais de concurso. Assim que surgiu o concurso para o Curso de Engenharia Florestal, na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul em Aquidauana, eu me inscrevi. O curso era novo e na ocasião, em 2011, foi para a contração dos primeiros Engenheiros Florestais que iriam compor o curso. De 2011 até hoje, foram muitas conquistas e o curso cresceu muito.

Crea-MS – Como foi a faculdade e como é, hoje, atuar em uma profissão onde a presença masculina ainda é maioria? A senhora acredita que haja algum tipo de dificuldade? Pode nos relatar a sua experiência, como engenheira e como professora?

Adriana – Tive muitos momentos bons, mas muitos momentos ruins também. Eram horas e horas estudando, e muitas noites em claros, muita pressão psicológica, mas que ao final somaram-se em muito crescimento profissional, pessoal e muita resiliência.

Durante o início da graduação eu já percebia que os alunos que se engajavam em atividades fora da sala de aula eram muito mais empolgados com o curso do que os que simplesmente assistiam às aulas. Então, rapidamente procurei me envolver em muitos projetos, estágio e eventos, e isso, com certeza contribuiu para a consolidação da minha trajetória. Eu adoro atuar como docente, amo fazer o que faço, a UEMS é uma excelente Universidade e aqui me sinto realizada.

Na época que ingressei no curso, realmente o número de mulheres era bastante reduzido, porém hoje essa situação já se igualou. Como engenheira, acredito que a mulher já alcançou seu espaço e pode competir de igual para igual. Algumas áreas de fato, tem a presença de uma quantidade reduzida de mulheres, porém acredito ser por opção da própria mulher de não se especializar em determinada área, até por falta de afinidade mesmo, como por exemplo, a colheita florestal. A área de viveiro, nas grandes empresas do setor florestal, é um bom exemplo, onde a maioria dos trabalhadores são mulheres, em função da sua delicadeza, zelo, cuidado, atenção e consequentemente produtividade. Como professora, tenho cada vez mais certeza que conquistamos nosso espaço. Este semestre ministro uma disciplina de Introdução à Engenharia Florestal, onde 60% da turma são mulheres.

Crea-MS – A senhora forma novos engenheiros florestais anualmente. Como avalia o mercado de trabalho para esse profissional, nacional e localmente?

Adriana – Nós professores damos o nosso melhor. Porém, é preciso saber que o mercado sem dúvida seleciona o melhor dos melhores, então é preciso muita dedicação e determinação por parte dos alunos também.

O setor florestal nacional está aquecido como nunca. De acordo com a Indústria Brasileira de Árvores, até 2023 o setor florestal prevê investimentos em expansão de R$ 35,5 bilhões, isso envolve novos plantios, novas fábricas, expansões, tecnologia e ciência. Esse investimento é o dobro do valor investido entre 2016 e 2019. Localmente, sabemos que o Mato Grosso do Sul tem se destacado nos últimos anos, e agora a instalação de mais uma fábrica de celulose vai proporcionar muitas oportunidades para os nossos futuros Engenheiros Florestais. O momento é promissor para os nossos novos profissionais. Sabemos do comprometimento que essas indústrias têm com os profissionais locais e esperamos por isso.

Crea-MS – Como podemos destacar a atuação e a importância dos engenheiros florestais neste momento em que tanto se fala em desmatamento ilegal, e ao mesmo tempo, em reflorestamento e manejo florestal?

Adriana – As disciplinas que compõem a grade curricular do curso formam o engenheiro florestal como um profissional pronto para atuar com visão diferenciada e muita competência no reflorestamento e no manejo florestal. Atuando nessas duas frentes, podemos mitigar os efeitos do desmatamento, recompondo a floresta, ou melhor ainda, evitando o desmatamento com a aplicação da prática do manejo florestal e uso racional da florestal. A educação ambiental também é uma grande aliada para reduzir a prática do desmatamento.

Recado aos futuros engenheiros florestais:

Adriana – Aos novos profissionais eu entendo que é preciso gostar do que faz, ter paixão por desafio e ter sede de aprender, amar a natureza e não ter medo de superar seus limites. O conhecimento na área de gestão de pessoas tem sido o grande diferencial para o novo profissional.