Resgate no Chile: a engenharia a serviço da vida

O mundo todo acompanhou perplexo, por quase 70 dias, a angústia dos mineiros e  seus familiares e o empenho do governo chileno para conseguir resgatar as 33 vidas presas a 700 metros de profundidade no interior da mina San José, em Copiapó, no Deserto de Atacama, ao norte do Chile, país que agora inclui o desmoramento de minas completando sua lista de eventos trágicos, como os terremotos, elevação do mar e erupções vulcânicas.

Improvável, ao acompanhar as imagens ao vivo pela televisão, quem não se emocionasse.  É fácil imaginar o que se passava na cabeça daqueles trabalhadores, confinados, famintos, num lugar inóspito, vendo os dias passarem sem saber se dali sairiam vivos. 

Apesar de todo o sofrimento, foi um belo espetáculo de união, de trabalho, solidariedade, e, principalmente de engenharia, que ao desenvolver com maestria as cápsulas Fênix – uma alusão ao pássaro que ressurge de suas cinzas -, devolveu à luz, na metade do tempo previsto, os trabalhadores da mina. 

Um avanço de grande representatividade para engenharia mundial, e certamente um desafio enriquecedor para esses profissionais, já que não há registros de um resgate dessa magnitude. A atuação dos engenheiros foi primordial para o desenvolvimento das cápsulas Fênix, projetadas pela Nasa e construídas pela Astilleros y Maestranzas, empresa estatal ligada à Marinha chilena, a pedido  do governo.  

A Fênix é uma versão moderna da bomba-Dahlbusch, utilizada nos anos de 1950 em Gelsenkirchen, na Alemanha, para salvar três mineiros; é equipada com oxigênio, câmeras de vídeo e com cinto que mede sinais vitais dos passageiros. Da Alemanha também foram enviados um motor e uma cabeça perfuradora que escavaram os 622 metros para retirar os trabalhadores.  

Felizmente, a união de conhecimentos e experiências aliada à modernização da tecnologia desenvolvida por engenheiros latino-americanos mostra a importância que tem essa ciência na segurança da vida humana. É necessário, ainda, destacar o conhecimento que este trabalho deixará para as engenharias, sobretudo, a de minas. No entanto, apesar de toda a tecnologia disponível, o episódio culminado na última quarta-feira deixa-nos o alerta da importância de se ter a segurança como ferramenta primordial em trabalhos que conferem riscos aos trabalhadores.

A engenharia latino-americana mostrou sua capacidade, seu inegável avanço e, nós engenheiros, acompanhamos com muito orgulho a competência e organização dos colegas que realizaram com grande êxito um dos maiores resgates registrados na história. Este episódio ficará marcado no percurso da engenharia mundial, como o momento em que a tecnologia se tornou indispensável, servindo de suporte para um único e gratificante propósito: salvar vidas.

Engenheiro Jary de Carvalho e Castro
Presidente do CREA-MS