Confea/Crea na Rio+20: Economia Verde - novo conceito para mudar os atuais padrões de consumo e produção
Economia verde – o novo conceito de modelo de produção e consumo que abriga dezenas de definições– foi o tema debatido na sexta-feira, 15 de junho, último dia do Fórum sobre Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável, evento que integrou a programação da Rio+20 e que durante toda a semana passada foi realizado na PUC-Rio.
Fábio Feldmann, ambientalista, consultor, ex-secretário de meio ambiente de São Paulo e único brasileiro entre os palestrantes, recorreu à ironia para destacar que muito se fala e pouco se sabe sobre o conceito de economia verde.
Segundo ele, “muito mais amplo e profundo, que não se resume ao uso do etanol. Alcança a avaliação de condições de trabalho, um consumo racional, certificações sociais e ambientais, e ainda a elaboração do Produto Interno Bruto, considerando indicadores ambientais e sociais dos países”, esclareceu.
Davinder Lamba, diretor do Instituto Manzigira, de Nairobi, no Quênia, também palestrante do painel sobre Novos Modelos Econômicos, afirma que “é preciso considerar diversos aspectos para percebermos a relação homem x meio ambiente, inclusive, a cultura de cada localidade e região”.
Para Lamba, “o desenvolvimento de uma cultura ambiental implica a abordagem política, econômica e social de um país, considerando, inclusive, aspectos como a miscigenação de raças”, que para ele também “implica a mistura dos usos e costumes de cada povo”.
Transição
Com o objetivo de divulgar e incentivar a realização de pesquisas, criação de tecnologias e a elaboração de agendas relativas a segurança alimentar e ciências, envolvendo diversas disciplinas, o Fórum sobre Ciência, Tecnologia e Inovação para um Desenvolvimento Sustentável, promovido pelo Conselho Internacional de Ciência, reuniu mestres, cientistas de diversas áreas, professores e estudantes para discutir a transição do atual modelo econômico para a economia verde.
Para a maioria dos palestrantes, o crescimento populacional, o consumo e produção sustentável, clima, metas ambientais, segurança alimentar e hídrica, melhoria da urbanização, e mesmo os conhecimentos indígenas precisam ser considerados para a economia verde ser alcançada.
E mais, em busca da chave para o desenvolvimento sustentável, os participantes também compartilham a preocupação com a saúde humana diante de um crescimento populacional que pode colocar 9 bilhões de habitantes no planeta até 2050 e com os atuais padrões de consumo e produção. Para eles, “a continuar no ritmo e a realidade de hoje, a saúde estará cada vez mais fragilizada”.
Conhecimento
Clima e mudanças ambientais mostram os processos e mudanças da terra relacionadas com a atividade humana, dizem os analistas, o que, segundo eles, revela a urgência de investimentos em segurança alimentar, o que por sua vez remete à segurança hídrica, que envolve o uso racional e a proteção dos sistemas hídricos.
Em todos os dias do fórum, a necessidade de os governantes basearem suas decisões em informações reveladas por estudos e pesquisas interdisciplinares elaborados por cientistas foi defendida pelos participantes.
Com relação ao desenvolvimento urbano e qualidade de vida da população, “é preciso considerar a ameaça aos recursos naturais”, alertam os especialistas, que defendem a transferência de conhecimentos e tecnologias na medida em que forem gerados na busca de respostas e de caminhos estratégicos que melhorem as condições do meio ambiente e recuperam ao menos parte dos danos provocados pelo homem.
Energia
Em entrevista exclusiva para o site do Confea, o físico, ex-ministro da Educação e professor José Goldemberg afirmou que “o mundo deve ter o Brasil como exemplo”.
Para ele, o planeta terá que rever dependência de fontes fósseis de energia: “o mundo, é evidente, terá que abandonar a dependência dominante dos combustíveis fósseis e se dirigir para fontes de energia renováveis”.
Goldemberg revela que as perspectivas até 2050 projetam que a matriz energética mundial dependerá entre 30% a 50% de fontes renováveis. “Esse número é sólido, resultado de estudos de grupos científicos capacitados”, garante.
“No Brasil já estamos com 47% da energia renovável. Para o mundo, o desafio é renovar, para o Brasil é manter esse índice. Somos exemplo e desafio”, afirmou.
Impactos ambientais
Os impactos causados nas populações pelos desastres ambientais também foram analisados por professores, físicos, cientistas e representantes governamentais de diversos países.
Para todos, os recursos tecnológicos são os melhores meios para reduzir e, em muitos casos, evitar a perda de milhares de vidas atingidas por intempéries, terremotos, erupções vulcânicas e tsunamis, por exemplo.
Para Kuniyoshi Takeuchi, diretor do Centro de Riscos do Japão, “evitar ou reduzir impactos gerados por acidentes depende de recursos, de investimentos e isso depende de decisões políticas”.
Já Abdou Sane, do Movimento para Prevenção de Desastres Naturais, do Senegal, acredita que para evitar os impactos não se pode esperar decisões políticas, as quais podem demorar. Para ele, “a mobilização e a participação da sociedade são decisivas para apressar a tomada de decisões governamentais”.
Badaoui Rouhban, representante da Unesco, por sua vez, defendeu a “despolitização das discussões em torno das questões que envolvem os desastres ambientais”.
Babel
A tenda que abrigou as atividades do Forum on Science, Technology & Innovation for Sustentainable Development – com programação apenas em inglês e sem tradução simultânea das palestras – se tornou uma espécie de torre de babel onde, em diversos idiomas, reviu-se, analisou-se, apresentou-se novidade sobre, defendeu-se e se falou sobre a necessidade de investimento em pesquisas e mudanças na Educação, a fim de mudar o comportamento e os atuais padrões de consumo na construção – demorada e minuciosa como toda a construção - de uma cultura ambiental, conceito ainda mais profundo do que o da economia verde.
Maria Helena de Carvalho - Confea